Quadro Dos Orixas
O quadro dos orixas reúne as imagens, cores e camadas de significado que orientam a prática e a devoção nos terreiros de religiões de matriz africana, servindo como referência visual para entender os rituais, os ensinamentos éticos e a conexão entre os ancestrais e o mundo contemporâneo. Cada quadro funciona como um mapa sagrado que organiza a memória coletiva, preserva a história e facilita a transmissão de saberes de geração em geração, ao mesmo tempo em que expressa a pluralidade cultural e a riqueza simbólica presente nos caminhos de fé.
Origem e contexto histórico do quadro dos orixas
O desenvolvimento do quadro dos orixas está intrinsecamente ligado aos processos de resistência, adaptação e afirmação cultural durante o período colonial e escravagista, quando comunidades africanas, indígenas e, mais tarde, povos europeus conviveram e transformaram suas práticas religiosas no território que hoje conhecemos como Brasil. Inicialmente, os rituais eram transmitidos de forma oral, por meio de cânticos, danças e oferendas, mas, com o avanço da repressão e da necessidade de sobreviver a um contexto de opressão, surgiu a necessidade de sistematizar visualmente os ensinamentos, resultando no surgimento de quadros que reúnhamos a cosmologia, a ética e a organização hierárquica dos orixás.
Historicamente, o quadro dos orixas reflete a sincretismo religioso e a reinterpretação dos símbolos africanos diante das condições locais, incorporando elementos da natureza, da flora e da fauna do território brasileiro, além de influências católicas e espirituais de outras culturas. Esses quadros passaram a ser confeccionados com materiais locais, como tintas caseiras, tecidos e bordados, e muitas vezes eram desenhados em telas, paredes de terreiros ou objetos rituais, funcionando como verdadeiras obras de arte que expressam a fé e a identidade cultural de um povo.
Estrutura e organização do quadro
A estrutura do quadro dos orixas costuma seguir um padrão simétrico e harmonioso, no qual os orixás são dispostos em posições específicas que respeitam a hierarquia espiritual e a afinidade entre eles. No centro, geralmente, encontra-se Oxalá, representado como o ancestral supremo, o criador e o guardião da sabedoria, enquanto outros orixás, como Ogum, Oxóssi, Iansã, Oxum, Xangô e Obbalá, são posicionados de acordo com suas funções, características, cores e dias da semana, criando um mapa visual que ajuda os praticantes a localizar e invocar cada entidade de forma precisa durante as celebrações.
Além da disposição espacial, o quadro dos orixas inclui elementos simbólicos, como estrelas, raios, serpentes, flechas, oceanos, montanhas e outros recursos gráficos que representam atributos, mitos e poderes específicos de cada orixá. Esses símbolos são fundamentais para a compreensão dos ensinamentos transmitidos, pois funcionam como uma linguagem visual que transcende palavras, permitindo que fiéis e curiosos acessem camadas mais profundas da tradição e percebam como cada detalhe está conectado com a cosmovisão afro-brasileira.
Significado simbólico das cores e imagens
As cores presentes no quadro dos orixas carregam significados profundos e estão diretamente associadas às energias, virtudes e ensinamentos de cada orixá. Por exemplo, o azul-claro de Oxalá representa a pureza, a paz e a conexão com o divino, enquanto o vermelho vibrante de Xangô simboliza a força, a paixão, a justiça e o domínio dos elementos naturais como o fogo e o raio. Já o rosa-de-ouro de Oxum remete à fertilidade, ao amor, à doação e ao fluxo abundante da vida.
Os desenhos e imagens que compõem o quadro dos orixas também funcionam como um código visual que ensina sobre a interdependência entre os seres, a importância do equilíbrio entre os opostos e o respeito à diversidade. A representação de animais, como o boi, o camelo, o cavalo, as aves e os peixes, remete às qualidades que cada orixá incorpora e orienta, incentivando práticas de convivência harmoniosa com a natureza e com o próximo. Esses quadros, portanto, tornam-se verdadeiras lições de ética, espiritualidade e cultura, que dialogam com o passado, presente e futuro.
Uso prático nos terreiros de fé
No cotidiano dos terreiros, o quadro dos orixas atua como ferramenta de orientação espiritual, servindo como ponto de partida para as preparações rituais, como a limpeza do espaço, a organização dos objetos de culto e a escolha das oferendas. Antes de qualquer manifestação de fé, é comum que os pais de santo e as mães de santo consultem o quadro para verificar as orientações sobre como conduzir as cerimônias, respeitando as particularidades de cada orixá e garantindo que todos os elementos simbólicos estejam presentes de forma correta.
Além disso, o quadro dos orixas é utilizado como instrumento de ensino, especialmente para os iniciantes, que, ao observarem e estudarem o quadro, vão compreendendo gradualmente a complexidade da tradição e desenvolvendo sensibilidade para os rituais, os cuidados éticos e a importância de manter viva a conexão com os ancestrais. A prática de meditar olhando para o quadro, rezar diante dele ou usar sua imagem como referência durante a limpeza espiritual ajuda a ancorar os participantes, reforçando a identidade religiosa e a confiança no caminho que estão trilhando.

Preservação, estudos e atualização contemporânea
A preservação do quadro dos orixas é uma responsabilidade coletiva que envolve não apenas os terreiros, mas também pesquisadores, artistas, historiadores e educadores interessados em garantir que os saberes simbólicos e as práticas culturais não sejam perdidos ao longo do tempo. Diversos estudos têm buscado documentar diferentes versões do quadro, registrando variações regionais, interpretações pessoais e inovações que surgem a partir do diálogo entre tradição e contemporaneidade, sem perder de vista a essência espiritual e ética representada.
Atualmente, o quadro dos orixas também tem se adaptado às novas formas de comunicação e expressão, aparecendo em livros, vídeos educativos, exposições culturais e espaços digitais, sempre com o cuidado de manter a profundidade simbólica e o respeito aos ensinamentos originais. Esse dinamismo demonstra que a tradição não é estática, mas um campo vivo de significado, capaz de se renovar sem trair suas raízes, convidando novas gerações a se conectarem com a sabedoria ancestral de forma autêntica, crítica e profundamente transformadora.
Em síntese, o quadro dos orixas é muito mais do que uma composição visual; é um instrumento sagrado de memória, ensino e conexão, que reúne história, cosmologia, ética e arte em um só artefato, capaz de orientar práticas, fortalecer identidades e aproximar pessoas das forças ancestrais que, através desse legado, seguem presentes, oferecendo orientação, proteção e transformação a todos que se abrem para acolher seus ensinamentos.

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